“Mistérios” de Knut Hamsun

Nagel é das personagens mais perturbadas da literatura mundial; nada do que diz aos outros é confiável e mesmo o que pensa para si próprio deixa o leitor com a sensação de estar a ser enganado. Afinal, existe alguma verdade? Existirá, na vida, alguma coisa que se possa tomar como moralmente nobre, justa, honesta? A honestidade e a generosidade serão apenas valores que são sempre mais abusados por quem é mais falso no seu íntimo? O mistério que os “Mistérios” querem desvendar é, muito provavelmente, o absurdo de existir. E, esse mistério é insondável e mesmo insolúvel.


A chegada de Nagel a uma pequena cidade da costa norueguesa no ano de 1891 não tem qualquer significado nem propósito. Não há razão aparente para a sua estadia ali nem nenhum motivo para visitar aquele sítio em particular. 


Nagel veste um fato amarelo, aloja-se num hotel, traz consigo uma maleta de violino, diz-se agrónomo de profissão e transporta no casaco uma ampola de veneno!


Mais tarde, o leitor dá-se conta de que: Nagel tem uma maleta de violino cheia de roupa suja e alega que não sabe tocar!

Mais tarde ainda, o leitor dá-se conta de que: Nagel toca num violino emprestado numa festa da aldeia!


Nagel envia cartas a si próprio!


Nagel é bondoso com alguns dos habitantes da cidade e não espera retribuição. A sua generosidade é real e nunca hipócrita. De uma forma caótica e destrutiva, vai semeando as forças do caos e vai conseguindo trazer ao de cima os segredos mais escuros de todos os habitantes.


Nagel não acredita em “grandes homens” e nunca foi agrónomo! É, quanto muito, “um filósofo que nunca aprendeu a pensar”.


Nagel apaixona-se (?) pela menina Kielland para ter o prazer de ser rejeitado. 


Nagel traz consigo uma medalha que ganhou por ter salvo um homem do suicídio!


Nagel tenta matar-se, depois de ter dito que nunca o faria!


A última notícia do Sr. Nagel é a de se ter atirado ao mar em busca do seu anel de ferro!

O Nagel dos Mistérios é afinal e depois de tudo insuportável! A vida e a humanidade, em geral, é-lhe insuportável e parece-me que ele é insuportável na vida.

As histórias do Sr. Nagel parecem querer reflectir a dificuldade e a fragilidade da humanidade, o seu absurdo contraditório e a inquietação de estar vivo – o existencialismo em pessoa! A Natureza, enquanto entidade superior, tem um papel curioso – os passeios em modo livre do Nagel ou mesmo as suas fases febris alucinadas acabam por tomar lugar na floresta. Da ciência desconfia-se … dos curandeiros supersticiosos miraculosos tem-se mais respeito, é este o Sr. Nagel.


“A leste e a oeste, em casa e no estrangeiro, achava que as pessoas eram sempre as mesmas; a mesma vulgaridade, a mesma hipocrisia, desde o pedinte que colocava ligaduras numa mão perfeita sob o céu azul e cheio de ozono. E ele, Nagel, era melhor do que os ouros? Não era melhor, mas aquele era o fim.” 

Knut Hamsun (1859-1952) em “Mistérios” (1892)

Sobre o norueguês Knut Hamsun deixo a nota que foi considerado traidor da sua pátria e morreu num asilo. Isto, depois de ter entregue a sua medalha de Prémio Nobel ao Goebbels.

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