Feliz Natal, Scrooge!

“You are fettered,” said Scrooge, trembling. “Tell me why?”
“I wear the chain I forged in life,” replied the Ghost. “I made it link by link, and yard by yard; I girded it on of my own free will, and of my own free will I wore it.” 

 Charles Dickens, A Christmas Carol

O Gigante deitado – Parte I

Gantreu, naquele dia, deitou-se mais cedo.

Primeiramente, apoiou-se com gentileza na colina mais próxima de si com o braço esquerdo, depois desceu o corpo devagar, sentando-se – a terra estremeceu em queixas. O peso do seu corpo mole e cansado hoje era demais.

Pós-se a examinar os seus pés. As bolhas rebentaram e um líquido pálido e doentio escorria vagarosamente de encontro ao chão. Ao escorrer pelo pé, desde os dedos onde se formara até ao calcanhar, deixava um rasto viscoso e brilhante; formou uma gota que foi cair violentamente, animada pela aceleração da queda, em cima da copa de uma faia centenária. Os ramos partiram-se de imediato, oferecendo nenhuma resistência.

Como se considerasse essencial purgar aquele mal de si, Gantreu cuidadosamente apertou uma das maiores bolhas, mais pus de lá saiu, desta vez mais amarelado. As dores de um mal menor são o consolo de quem tem uma vida de gigante; Gantreu espremeu as suas bolhas até ser totalmente noite. 

“Águas de Março”, Tom Jobim

É pau, é pedra, é o fim do caminho

É um resto de toco, é um pouco sozinho

É um caco de vidro, é a vida, é o sol

É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol

É peroba do campo, é o nó da madeira

Caingá, candeia, é o Matinta Pereira

É madeira de vento, tombo da ribanceira

É o mistério profundo, é o queira ou não queira

É o vento ventando, é o fim da ladeira

É a viga, é o vão, festa da cumeeira

É a chuva chovendo, é conversa ribeira

Das águas de março, é o fim da canseira

É o pé, é o chão, é a marcha estradeira

Passarinho na mão, pedra de atiradeira

É uma ave no céu, é uma ave no chão

É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão

É o fundo do poço, é o fim do caminho

No rosto, o desgosto, é um pouco sozinho

É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto

É um pingo pingando, é uma conta, é um conto

É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando

É a luz da manhã, é o tijolo chegando

É a lenha, é o dia, é o fim da picada

É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada

É o projeto da casa, é o corpo na cama

É o carro enguiçado, é a lama, é a lama

É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã

É um resto de mato, na luz da manhã

São as águas de março fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração

É uma cobra, é um pau, é João, é José

É um espinho na mão, é um corte no pé

São as águas de março fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho

É um resto de toco, é um pouco sozinho

É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã

É um belo horizonte, é uma febre terçã

São as águas de março fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração

Au, edra, im, minho

Esto, oco, ouco, inho

Aco, idro, ida, ol, oite, orte, aço, zol

São as águas de março fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração

Alienação

“Modern French literature is especially preoccupied with the theme of boredom. Stendhal mentioned it on every page, Flaubert devoted books to it, and Baudelaire was its chief poet”

reflexão da personagem de Charles Citrine no livro de Saul Bellow, Humboldt’s Gift

É uma dor causada pelo desperdício de forças, possibilidades ou poderes, acompanhada pela expectativa da utilização óptima das capacidades. (traduzido livremente de Humboldt’s Gift, S. Bellow)

O excesso de tempo em mãos em associação com o cérebro em funcionamento, que se sente abranda progressivamente, é uma combinação matadora e perversa. O ser humano foi feito para ser útil a si próprio. Quando o sentido de utilidade se perde a identidade pessoal anula-se. O nosso cérebro não se compadece com a inactividade – é preciso revolução constante. Não é por acaso que a inactividade (física e mental) está em correlação directa com a doença mental. Será muito fácil encontrarem mais informação sobre este assunto.

“This is one of the most urgent problems for civilized man. He has created civilization to give himself security. Security for what? For boredom? His chief problem seems to be that most human beings need a certain amount of challenge, of external stimulus, to stop them from sinking into the blank stare and blank consciousness of the idiot.”

Collin Wilson, New Pathways in Psychology

A questão do tédio ou do aborrecimento pode ser também tratada sob o conceito de alienação:  

alienação s.f. (1572) 
ato ou efeito de alienar(-se); alheação, alheamento, alienamento 

jur transferência para outra pessoa de um bem ou direito <a. de uma propriedade> 

estado resultante do abandono ou privação de um direito natural <a. da liberdade> 

fil no hegelianismo, processo em que a consciência se torna estranha a si mesma, afastada de sua real natureza 

fil no marxismo, processo em que o ser humano se afasta de sua real natureza, torna-se estranho a si mesmo, pois os objetos que produz passam a adquirir existência independente do seu poder e antagônica aos seus interesses 

p.ext. infrm. indiferença aos problemas políticos e sociais

(imagem em destaque: GRIS)

Mas nada lhe escapou ao conhecimento …

Por Miguel Esteves Cardoso 

A estupidez de “para não morrer estúpido” como justificação para experimentar qualquer coisa que não nos apetece é exposta caso imaginemos, na lápida tumular de quem tenha experimentado tudo que há no mundo uma só vez: “Morreu inteligente”. Sofreu muito, sim – e não conheceu a alegria de perseguir e repetir os gostos e os prazeres da vida dele. Mas nada lhe escapou ao conhecimento.

“O Homem dos Sonhos” de Mário de Sá-Carneiro

“Era um espírito original e interessantíssimo; tinha opiniões bizarras, ideias estranhas – como estranhas eram as suas palavras, extravagantes os seus gestos. Aquele homem parecia-me um mistério. Não me enganava, soube-o mais tarde: era um homem feliz. Não estou divagando: era um homem inteiramente feliz – tão feliz que nada lhe pode aniquilar a sua felicidade. Eu costumo dizer, até, aos meus amigos que o facto mais singular da minha vida é ter conhecido um homem feliz.

O mistério, penetrei-o uma noite de chuva – uma noite muito densa, frigidíssima. Eu começara amaldiçoando a vida, e, num tom que lhe não era habitual, o meu homem apoiou:

– Tem razão, muita razão! É uma coisa horrível esta vida – tão horrível que se não pode tornar bela! Olhe um homem que tenha tudo: saúde, dinheiro, glória e amor. É-lhe impossível desejar mais, porque possui tudo quanto de formoso existe. Atingiu a máxima ventura, e é um desgraçado. Pois há lá desgraça maior que a impossibilidade de desejar!”

Excerto retirado de “O Homem dos Sonhos” de Mário de Sá-Carneiro (1890 – 1916).


“À volta o mar, no meio o inferno” na Barraca no Cinearte

Teatro Cinearte

É com base nas “Notas da viagem a Sacalina” misturada com interrupções de outros trabalhos de Anton Tchekov que surge esta peça de Maria do Céu Guerra.

Vale demasiado a pena ir ver para deixar perder. Imagine-se o cenário gelado, degradante e perturbador da ilha de condenados de Sacalina. 

O Tchekov da peça parte para uma longa viagem para a ilha, com o objetivo (nem sempre muito claro) de fazer um censo sobre as condições de vida dos prisioneiros e condenados a permanecer na ilha: doenças, penas, castigos e maneiras de viver. O jovem médico parte de Moscovo e demora-se 11 semanas para chegar à ilha-prisão. Os russos enviam milhões para manter esta colónia e não sabem exactamente o que por lá se passa.

É uma depravação de hierarquias e de verdadeiros desgovernos, onde a vodka enriquece e o prisioneiro, cuja perda de liberdade deve ser o maior castigo, trabalha forçosamente nas minas – quem se recusa, saberá correr o risco…

Para além da descoberta da ilha de Sacalina, Tchekov vai-se descobrindo a si próprio e ao seu propósito no mundo – Será ele, afinal, um médico ou um escritor? 

Construção, Chico Buarque

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
 
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
 
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
 
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão, atrapalhando o tráfego
 
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
 
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
 
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
 
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
 
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado
 
Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague
 
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair
Deus lhe pague
 
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague

O Coração das Trevas

Exames médicos antes de iniciar um novo trabalho 


Antes de ir comandar o navio fluvial do Congo, região ainda por conhecer, a branco nos mapas da altura, o médico da Companhia, depois de outras perguntas, diz a Marlow: A todos os que partem para a área meço as dimensões dos seus crânios. Importa-se que meça o seu? no interesse da ciência, vocês ficam com os tesouros destas colónias, eu só peço a vossa valiosa contribuição para os meus estudos. Tem antecedentes de loucura na sua família? Importa-se que meça? Marlow ofendeu-se e perguntou: E quando regressam volta a medir? O médico continuou sem arrependimentos: Não os volto a ver e não são as dimensões que se alteram é o que acontece por dentro. Evite irritações, evite irritações ainda mais do que o sol. É preciso calma nos trópicos, muita calma. Adieu, adieu ou good-bye como dizem na sua terra.


O antecessor de Marlow, um comandante dinamarquês, viveu por anos na área. Era um homem muito calmo, correto, ponderado e inteligente – antes de chegar. Veio a morrer numa escaramuça violenta com um local, ao que se soube, por conta de duas galinhas.
O silêncio ameaçador da floresta impenetrável que os envolve. A incompreensão mais aterrorizante de todas. O sangue que empoça nas botas e nas meias. Quem é este Kurtz ? Que é descrito por tantos, como um prodígio do avanço e do progresso, um homem superior, que guiará os outros ao verdadeiro propósito da presença do branco ali no congo.


Será isto uma história de anti-guerra, um ataque aos males do colonialismo? Ou, por outro lado, a história de Conrad, é pouco empática com os africanos?

Pessoalmente, não fiquei com nenhuma destas duas ideias. É pela proximidade ao horror inexplicável do que se lá passa, que Marlow conhece o limite da luz da alma humana, depois disto, é trevas. A corrupção, a loucura, a opressão da selva que expulsa.