Lermóntov inventou um homem empático e antipático conforme as necessidades – Pétchorin é atormentado pelo enfado, com a semente da desilusão do “homem notável que quase poderia ter sido” enterrada até aos ossos. Pétchorin é tantas vezes endiabrado, incompreensível e vil e outras tantas vezes assistimos à queda das personagens que o rodeiam inevitavelmente para debaixo do seu charme magnético. É analítico consigo próprio até ao detalhe – viveu tudo na sua cabeça antes de ter vivido, depois ficou a sobrar a autenticidade e o arrebatamento de tudo o que é espontâneo.
Este nosso herói é o início dos anti-heróis – tem como maior prazer da sua vida a capacidade de exercer poder sobre o outro: “o meu primeiro prazer é subordinar à minha vontade tudo o que me rodeia”.
Do ponto de vista da sua estrutura, a construção do romance é refrescante. O leitor começa por conhecer Pétchorin por uma historia relatada de outras duas personagens, uma delas participante nos eventos. Depois, passamos para os diários do próprio Pétchorin. A relógio de água chama-lhe estrutura em espiral e é mesmo assim.
É difícil escrever sobre esta história sem tocar no aspeto dos duelos e no destino trágico do autor.
«O autor teve todo o cuidado em se distinguir do seu herói; mas para o leitor emocional, grande parte do fascínio e dramatismo do romance reside no facto de o próprio destino trágico de Lérmontov ficar de certo modo sobreposto ao de Petchórin, do mesmo modo que “O Sonho do Daguestão” adquire uma força dramática emocional quando o leitor se apercebe de que o sonho do poeta se torna realidade.»
Vladimir Nabokov