[ Um encontro entre J. Alfred Prufrock, Percy Bysshe Shelley, Bertrand Russel e o Imperador Adriano.
A dois minutos do grupo dispersar e de seguir cada um o seu caminho, entra em cena o Anselmo Borges ou, em alternativa, o ancião Zózima mais do que atrasados.Encontraram-se a propósito de um futuro colóquio, que à data deste documento já decorreu na Biblioteca dos Coruchéus em Alvalade; pretende-se uma discussão produtiva sobre as dificuldades dos tempos modernos – “Vives ao ritmo dos tempos modernos?” Trata-se de uma imitação da iniciativa que aconteceu na Gulbenkian. ]
Quem toma a palavra, primeiramente, é o Senhor Percy, que vem de longe, com a voz egípcia do Rei dos Reis diz:
– O meu nome é Ozymandias, Rei dos Reis; reparai nos meus trabalhos, oh poderosos, e desesperai! Ainda que em pedaços, em pedaços lá estou no deserto – duas pernas de pedra, enormes e sem corpo, pouco distante na areia mais além, um rosto já quebrado.
O Senhor Bertrand, que come e bebe quando a natureza o manda, tem o seu contributo sério a dar à discussão:
– A melhor maneira de ultrapassar o medo da morte – como a mim me parece – é tornar os interesses de cada um, gradualmente alargados e cada vez mais impessoais, até, bocado a bocado, as muralhas do ego cederem, e a tua vida se fundir com a vida universal. A existências individual humana deve ser como um rio: pequeno no início, estreitamente contido nas suas margens, apaixonadamente a atravessar por rochas e quedas livres. Com o tempo, o rio cresce e alarga-se no seu leito, as águas fluem mais devagar e tranquilamente, até ao seu fim, em que se fundem com o mar, e sem dores perdem a sua individualidade.
A Senhora Yourcenar prefere exprimir-se em latim. Os seus companheiros traduzem tudo numa conversão instantânea:
– O Imperador Adriano, que por tantas linhas fui eu em primeira pessoa, conheço-lhe bem os motivos e as dúvidas, foi o primeiro a construir uma muralha de 84 milhas, para separar Romanos de Bárbaros. Ainda hoje lá está, no que é hoje o norte de Inglaterra.
O Senhor dos estúdios Ghibli, o próprio Miyazaki, que assiste à conversa, reclama:
– O que é preciso é haver espaço. Deixar o Sol entrar.
São as vozes do Senhor Elliot que se ouvem a seguir:
– O meu Prufrock, tão prematuramente envelhecido, não pretende acrescentar nada ao que já aqui foi dito. A sua condição de exaustão nervosa, por excesso de auto-consciência, não consegue reunir tantas imagens quebradas de uma só vez. Acredito que, se tivesse coragem, diria “haverá tempo, haverá tempo” ou, então, “atrevo-me eu a perturbar o universo?”. De resto, é só isto. Quero apenar alertar o Senhor Bertrand para ter cuidado com a morte pela água. Agora, devo regressar, porque o mês de Abril clama pelo meu nome.
Até que, os que chegam atrasados à reunião pré-colóquio, tomam a palavra em uníssono. Assim falam, o padre e professor de Filosofia, Anselmo Borges e o ancião Zózima, ainda vivo, conhecido dos Irmãos Karamázov, especialmente do mais novo:
– Amigos, aqui chegados, alguém poderá objectar que a esperança no Além é alienante, porque retira força ao compromisso com a luta por um mundo mais humano no Aquém. Mas, se se pensar mais fundo, é o contrário. A inesperança está a infectar a vida, porque se ama pouco. O amor autêntico quer eternidade e é o combate comprometido com um mundo mais justo, mais humano e mais feliz que reforça a esperança no Além.
Fontes, que muito recomendo:
“Ozymandias” por Percy Bysshe Shelley
“How to grow old” por Bertrand Russel
“Memórias de Adriano” por Marguerite Yourcenar
“The Love song of J. Alfred Prufrock” por T.S. Elliot
“Com o cadáver da esperança às costas” de Anselmo Borges
“Os Irmãos Karamázov” por Dostoiévski
