“Na vida dos imperadores há um momento, que se segue ao orgulho pela vastidão ilimitada dos territórios que conquistámos, à melancolia e ao alívio de sabermos que em breve renunciaremos a conhecê-los e a compreendê-los; um sentimento como que de vazio que nos assalta uma noite com o cheiro dos elefantes depois de chover e da cinza de sândalo que arrefece nas braseiras; uma vertigem que faz tremer os rios e as montanhas historiados na exuberante garupa dos planisférios, que enrola uns nos outros os despachos que nos anunciam a derrocada dos últimos exércitos inimigos de derrota em derrota, e tira o lacre dos selos de reis de que nunca se ouviu falar e que imploram a proteção dos nossos exércitos que avançam em troca de tributos anuais em metais preciosos, peles curtidas e cascas de tartaruga: é o momento desesperado em que se descobre que este império que nos parecera a soma de todas as maravilhas é uma ruína sem pés nem cabeça, que a sua corrupção está demasiado gangrenada para que baste o nosso cetro para a remediar, que o triunfo sobre os soberanos adversários nos fez herdeiros da sua longa ruína.”
Italo Calvino, As Cidades Invisíveis
Mês: Abril 2025
Na dúvida, é preciso menos.
– Muito bem. E o que tens tu para dar? O que aprendeste, o que sabes fazer?
– Sei pensar. Sei esperar. Sei jejuar.
– Isso é tudo?
– Penso que é tudo!
– E para que serve isso? O jejuar, por exemplo, para que serve?
– É muito útil, senhor. Quando um homem nada tem para comer, jejuar é a coisa mais inteligente a fazer. Se, por exemplo, Siddhartha não tivesse aprendido a jejuar, teria hoje de aceitar qualquer serviço, em tua casa ou noutro lugar, porque a fome a isso o obrigaria. Mas assim, Siddhartha pode esperar, não conhece a impaciência, não passa dificuldades, pode enfrentar a fome durante muito tempo e rir-se dela. Por isso, senhor, o jejuar é útil.
Siddhartha, por Herman Hesse

