Certa ocasião, perguntei a alguns amigos se alguma vez tinham pegado em coisas que lhes dessem uma sensação arrepiante de história. Vasos antigos com dedadas de há três mil anos na argila, disse um deles. Sapatos de baile da Segunda Guerra Mundial. Moedas romanas que encontrei num campo. Velhos bilhetes de autocarro dentro de livros em segunda mão. Toda a gente concordou que o efeito destas pequenas coisas era estranhamente íntimo; quando lhes pegavam e as giravam nos dedos, elas faziam-nos entrar em contacto com outras pessoas, desconhecidos de há muito tempo, que tinham tido aquele objeto nas mãos. Não sabemos nada sobre elas, mas sentimos que estão ali, disse-me um amigo. É como se os anos que nos separassem desaparecessem. Como se nos transformássemos nelas, de algum modo.
Helen Macdonald, A de Açor
