A baleia mudou de direção quando caiu por sua vez, e chegou involuntariamente a uma pequena distância desta carnificina de barcos por ela provocada. Virando as costas aos náufragos, assim ficou um momento, apalpando lentamente com a cauda para um lado e para outro; e de cada vez que um remo perdido, um pedaço de madeira, o mais pequeno fragmento ou o menor destroço das embarcações lhe tocava na pele, imediatamente a sua cauda se levantava e descrevia um semicírculo, chicoteando o mar. Convencida, em breve, de que, de momento, a sua tarefa estava terminada, a sua cabeça enrugada cortou o oceano e, arrastando atrás de si as linhas emaranhadas, continuou o seu caminho a sotavento, com a marcha metódica de viajante.
Moby Dick, Herman Melville
Cenas da Vida Aldeã
O quarto de Ivan Petróvich; é onde ele dorme, mas é também o escritório da propriedade. Junto à janela há uma mesa grande com livros de contas e todo o género de papéis, uma escrivaninha, armários, uma balança. Há outra mesa, mais pequena, para Ástrov; em cima desta estão utensílios de desenho, tintas, uma pasta. Uma gaiola com um estorninho. Numa das paredes, um mapa de África, pelos vistos desnecessário para toda a gente dali. Um enorme divã forrado de oleado. À esquerda, uma porta que dá para os aposentos; à direita, uma porta para o átrio; à porta direita há um capacho, para que os mujiques não sujem o chão.
Fim de tarde outonal. Silêncio.
Téleguin e Maria estão sentados frente a frente, a enrolarem novelos de lã para as meias.
O tio Vânia – Cenas da Vida Aldeã em Quatro Actos, Anton Tchékhov
Let’s go exploring!

O que diz a cor escolhida pela Pantone para 2026 sobre como nos sentimos coletivamente? A sério, “cloud dancer”? PANTONE 11-4201 e porque é que isto me importa.
O Vice-Presidente da Pantone Color Institute diz que a decisão procura respeitar um mundo exausto que quer alívio e distanciamento emocional. “Nós queremos dar um passo atrás”, disse ele.
O branco etéreo, o dançarino das nuvens.
Só que este branco não confere aos objetos, às paredes, à roupa ou ao nosso humor, a qualidade de estar em relaxamento. Pode ser antes frio, clínico, artificial. Ao contrário da ausência de estímulos, é uma sala com demasiada luz sem calor. Um espaço estéril. O holofote que o dentista nos aponta enquanto nos pede para abrir a boca. É isto que queremos para 2026? 12 meses de visitas ao dentista?
É a cor da armadura dos Stormtroopers. Não lembra necessariamente sossego, pode ser o símbolo da opressão do Império.
O que estamos a dizer quando ansiamos que o ano 2026 venha vestido com PANTONE 11-4201? Talvez seja equivalente a: não quero ver cores. Não as tolero, pelo menos por agora, quero pré-branquear com lixívia o meu ano futuro. É um ato de prevenção quando já não se vai a tempo disso, mas sim de tratamento efetivo.
Outro lado desta intolerância ao que é assumidamente de qualquer cor pode ser o nosso desejo por transparências. Ser tão transparente que se perde a realidade das nossas próprias cores. Exigir a totalidade do que é transparente é pedir tudo branco, rejeitar a possibilidade de mistura, do que é sólido e duro – queremos vidros em todo o lado.
A natureza absolutista do PANTONE 11-4201 não gera dúvidas: é branco. Não há ambiguidade. Não há mais para além disto, nenhuma intenção escondida. É branco, é unicamente isso, não há nada por cima ou por debaixo desta realidade. É passar um corretor em cima do caos e não escrever um novo parágrafo.
O 11-4201 para 2026 não é um convite à neutralidade que conduz à paz, mas uma rendição de quem já desistiu antes de tentar, acenando com força uma bandeira branca coletiva.
P
Nada repreensível e tão defensável.
Os Justos
de Jorge Luís Borges
Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.
As corças não atravessam a estrada. A estrada atravessa a floresta.

“I run a tea shop on the border of the living and the dead. My stall sits within a cloud forest glade.”
You run a tea shop on the border of the living and the dead. The recently deceased visit for one last hot drink before their long journey into the Great Beyond.
Time is strange here. Days and memories blur. Nobody visited yesterday—you are sure of that. Someone passed last week, but you can’t recall their face.
The fog thins. A figure approaches. You stoke the fire.
Epoché ou Suspensão do Julgamento
” Serviu-se, como sempre, do seu hábito de não pensar em nada de especial e, após tremendos esforços, conseguiu finalmente afogar a ideia de “tragédia” num mar de palavras vazias. Não se pode dizer que tivesse, de qualquer maneira, decidido isso conscientemente, mas recordou-se, de repente, da sua antiga fórmula favorita: “Não sei de nada! Não proíbo nada, nem autorizo nada!” – a que sempre recorrera em circunstâncias difíceis. E em breve pôs termo à confusão íntima que o tinha angustiado durante algum tempo. “
Saltykov-Schedrin, A família Golovliov
Carta Aberta
“Em resumo, ao rebaixar-vos, denegrir-vos e depois coisificar-vos, concedemo-nos o direito de vos explorar e matar de boa consciência”
Frédéric Lenoir
O Primata FDP de “O Céu da Língua” voltou a Lisboa
1: Tá bom Roberto. As coisas tão na portaria. Pára, Roberto. Não faz drama.
2: Posso falar um poema? Você curte poesia? É Eugénio de Andrade.
E então o primata FDP percebeu que podia cantar por cima da radiação cósmica. E então o macaco inventou a música, uma maneira de organizar as notas dessa radiação cósmica de fundo de forma a que elas façam algum sentido. Vem a projeção gigante lembrar “vai morrer, filho da puta”. Vem depois dizer, a seguir, “Não adianta cantar, cara”.
A ideia desconcertante de que um dicionário é o cemitério de todas as metáforas mortas da nossa língua.
Meu marido! Ele tá sentindo alguma coisa que ele não sabe o nome. Ele enxergou o abismo da existência e precisa de alguma metáfora. Uma assonância, uma aliteração, qualquer coisa. Ninguém?
E então eu me levantaria, com o vento do ar condicionado no rosto. E diria: As armas e os barões assinalados que da ocidental praia Lusitana … E então o marido seria salvo por decassílabos.
O que pode um primata contra o nada? Sou o mesmo primata FDP, Gregório. Estou aqui a cantar contra a radiação cósmica do mundo, o projetor reflete na minha cara e eu agarrada aos infinitos nos juncos, por toda a eternidade e mais um dia. Onde estão agora? Os caminhos folhados de páginas de livros. Não vale a pena cantar? E tu, outro macaco FDP, que aí estás, a chutar o macaco morto, pára o que fazes — seja lá o que alguma vez fizeste — e vai comprar um bilhete para chegar ao Céu da Língua.







