Sobre “O Herói do Nosso Tempo” de Mikhail Lérmontov

Lermóntov inventou um homem empático e antipático conforme as necessidades – Pétchorin é atormentado pelo enfado, com a  semente da desilusão do “homem notável que quase poderia ter sido” enterrada até aos ossos. Pétchorin é tantas vezes endiabrado, incompreensível e vil e outras tantas vezes assistimos à queda das personagens que o rodeiam inevitavelmente para debaixo do seu charme magnético. É analítico consigo próprio até ao detalhe – viveu tudo na sua cabeça antes de ter vivido, depois ficou a sobrar a autenticidade e o arrebatamento de tudo o que é espontâneo.

Este nosso herói é o início dos anti-heróis – tem como maior prazer da sua vida a capacidade de exercer poder sobre o outro: “o meu primeiro prazer é subordinar à minha vontade tudo o que me rodeia”. 


Do ponto de vista da sua estrutura, a construção do romance é refrescante. O leitor começa por conhecer Pétchorin por uma historia relatada de outras duas personagens, uma delas participante nos eventos. Depois, passamos para os diários do próprio Pétchorin. A relógio de água chama-lhe estrutura em espiral e é mesmo assim.


É difícil escrever sobre esta história sem tocar no aspeto dos duelos e no destino trágico do autor.


«O autor teve todo o cuidado em se distinguir do seu herói; mas para o leitor emocional, grande parte do fascínio e dramatismo do romance reside no facto de o próprio destino trágico de Lérmontov ficar de certo modo sobreposto ao de Petchórin, do mesmo modo que “O Sonho do Daguestão” adquire uma força dramática emocional quando o leitor se apercebe de que o sonho do poeta se torna realidade.»

Vladimir Nabokov

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Feliz Natal, Scrooge!

“You are fettered,” said Scrooge, trembling. “Tell me why?”
“I wear the chain I forged in life,” replied the Ghost. “I made it link by link, and yard by yard; I girded it on of my own free will, and of my own free will I wore it.” 

 Charles Dickens, A Christmas Carol

O Gigante deitado – Parte I

Gantreu, naquele dia, deitou-se mais cedo.

Primeiramente, apoiou-se com gentileza na colina mais próxima de si com o braço esquerdo, depois desceu o corpo devagar, sentando-se – a terra estremeceu em queixas. O peso do seu corpo mole e cansado hoje era demais.

Pós-se a examinar os seus pés. As bolhas rebentaram e um líquido pálido e doentio escorria vagarosamente de encontro ao chão. Ao escorrer pelo pé, desde os dedos onde se formara até ao calcanhar, deixava um rasto viscoso e brilhante; formou uma gota que foi cair violentamente, animada pela aceleração da queda, em cima da copa de uma faia centenária. Os ramos partiram-se de imediato, oferecendo nenhuma resistência.

Como se considerasse essencial purgar aquele mal de si, Gantreu cuidadosamente apertou uma das maiores bolhas, mais pus de lá saiu, desta vez mais amarelado. As dores de um mal menor são o consolo de quem tem uma vida de gigante; Gantreu espremeu as suas bolhas até ser totalmente noite. 

“Águas de Março”, Tom Jobim

É pau, é pedra, é o fim do caminho

É um resto de toco, é um pouco sozinho

É um caco de vidro, é a vida, é o sol

É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol

É peroba do campo, é o nó da madeira

Caingá, candeia, é o Matinta Pereira

É madeira de vento, tombo da ribanceira

É o mistério profundo, é o queira ou não queira

É o vento ventando, é o fim da ladeira

É a viga, é o vão, festa da cumeeira

É a chuva chovendo, é conversa ribeira

Das águas de março, é o fim da canseira

É o pé, é o chão, é a marcha estradeira

Passarinho na mão, pedra de atiradeira

É uma ave no céu, é uma ave no chão

É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão

É o fundo do poço, é o fim do caminho

No rosto, o desgosto, é um pouco sozinho

É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto

É um pingo pingando, é uma conta, é um conto

É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando

É a luz da manhã, é o tijolo chegando

É a lenha, é o dia, é o fim da picada

É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada

É o projeto da casa, é o corpo na cama

É o carro enguiçado, é a lama, é a lama

É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã

É um resto de mato, na luz da manhã

São as águas de março fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração

É uma cobra, é um pau, é João, é José

É um espinho na mão, é um corte no pé

São as águas de março fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho

É um resto de toco, é um pouco sozinho

É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã

É um belo horizonte, é uma febre terçã

São as águas de março fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração

Au, edra, im, minho

Esto, oco, ouco, inho

Aco, idro, ida, ol, oite, orte, aço, zol

São as águas de março fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração

Alienação

“Modern French literature is especially preoccupied with the theme of boredom. Stendhal mentioned it on every page, Flaubert devoted books to it, and Baudelaire was its chief poet”

reflexão da personagem de Charles Citrine no livro de Saul Bellow, Humboldt’s Gift

É uma dor causada pelo desperdício de forças, possibilidades ou poderes, acompanhada pela expectativa da utilização óptima das capacidades. (traduzido livremente de Humboldt’s Gift, S. Bellow)

O excesso de tempo em mãos em associação com o cérebro em funcionamento, que se sente abranda progressivamente, é uma combinação matadora e perversa. O ser humano foi feito para ser útil a si próprio. Quando o sentido de utilidade se perde a identidade pessoal anula-se. O nosso cérebro não se compadece com a inactividade – é preciso revolução constante. Não é por acaso que a inactividade (física e mental) está em correlação directa com a doença mental. Será muito fácil encontrarem mais informação sobre este assunto.

“This is one of the most urgent problems for civilized man. He has created civilization to give himself security. Security for what? For boredom? His chief problem seems to be that most human beings need a certain amount of challenge, of external stimulus, to stop them from sinking into the blank stare and blank consciousness of the idiot.”

Collin Wilson, New Pathways in Psychology

A questão do tédio ou do aborrecimento pode ser também tratada sob o conceito de alienação:  

alienação s.f. (1572) 
ato ou efeito de alienar(-se); alheação, alheamento, alienamento 

jur transferência para outra pessoa de um bem ou direito <a. de uma propriedade> 

estado resultante do abandono ou privação de um direito natural <a. da liberdade> 

fil no hegelianismo, processo em que a consciência se torna estranha a si mesma, afastada de sua real natureza 

fil no marxismo, processo em que o ser humano se afasta de sua real natureza, torna-se estranho a si mesmo, pois os objetos que produz passam a adquirir existência independente do seu poder e antagônica aos seus interesses 

p.ext. infrm. indiferença aos problemas políticos e sociais

(imagem em destaque: GRIS)

Mas nada lhe escapou ao conhecimento …

Por Miguel Esteves Cardoso 

A estupidez de “para não morrer estúpido” como justificação para experimentar qualquer coisa que não nos apetece é exposta caso imaginemos, na lápida tumular de quem tenha experimentado tudo que há no mundo uma só vez: “Morreu inteligente”. Sofreu muito, sim – e não conheceu a alegria de perseguir e repetir os gostos e os prazeres da vida dele. Mas nada lhe escapou ao conhecimento.

“O Homem dos Sonhos” de Mário de Sá-Carneiro

“Era um espírito original e interessantíssimo; tinha opiniões bizarras, ideias estranhas – como estranhas eram as suas palavras, extravagantes os seus gestos. Aquele homem parecia-me um mistério. Não me enganava, soube-o mais tarde: era um homem feliz. Não estou divagando: era um homem inteiramente feliz – tão feliz que nada lhe pode aniquilar a sua felicidade. Eu costumo dizer, até, aos meus amigos que o facto mais singular da minha vida é ter conhecido um homem feliz.

O mistério, penetrei-o uma noite de chuva – uma noite muito densa, frigidíssima. Eu começara amaldiçoando a vida, e, num tom que lhe não era habitual, o meu homem apoiou:

– Tem razão, muita razão! É uma coisa horrível esta vida – tão horrível que se não pode tornar bela! Olhe um homem que tenha tudo: saúde, dinheiro, glória e amor. É-lhe impossível desejar mais, porque possui tudo quanto de formoso existe. Atingiu a máxima ventura, e é um desgraçado. Pois há lá desgraça maior que a impossibilidade de desejar!”

Excerto retirado de “O Homem dos Sonhos” de Mário de Sá-Carneiro (1890 – 1916).