1: Tá bom Roberto. As coisas tão na portaria. Pára, Roberto. Não faz drama.
2: Posso falar um poema? Você curte poesia? É Eugénio de Andrade.
E então o primata FDP percebeu que podia cantar por cima da radiação cósmica. E então o macaco inventou a música, uma maneira de organizar as notas dessa radiação cósmica de fundo de forma a que elas façam algum sentido. Vem a projeção gigante lembrar “vai morrer, filho da puta”. Vem depois dizer, a seguir, “Não adianta cantar, cara”.
A ideia desconcertante de que um dicionário é o cemitério de todas as metáforas mortas da nossa língua.
Meu marido! Ele tá sentindo alguma coisa que ele não sabe o nome. Ele enxergou o abismo da existência e precisa de alguma metáfora. Uma assonância, uma aliteração, qualquer coisa. Ninguém?
E então eu me levantaria, com o vento do ar condicionado no rosto. E diria: As armas e os barões assinalados que da ocidental praia Lusitana … E então o marido seria salvo por decassílabos.
O que pode um primata contra o nada? Sou o mesmo primata FDP, Gregório. Estou aqui a cantar contra a radiação cósmica do mundo, o projetor reflete na minha cara e eu agarrada aos infinitos nos juncos, por toda a eternidade e mais um dia. Onde estão agora? Os caminhos folhados de páginas de livros. Não vale a pena cantar? E tu, outro macaco FDP, que aí estás, a chutar o macaco morto, pára o que fazes — seja lá o que alguma vez fizeste — e vai comprar um bilhete para chegar ao Céu da Língua.
