Critérios de avaliação de Livros ou Avaliação Racionalizada da Experiência de Leitura, AREL.

O que define um bom livro? Que peso atribuir à construção da narrativa ou à boa voz do narrador? Que importância tem a qualidade das personagens? O que faz com que um livro, olhando para a nossa estante, importe mais do que outro? É possível encapsular o quanto se retirou de positivo de uma leitura num número de 1 a 100?

A ideia de implementar critérios de avaliação de livros não é minha, mas também não é nova! Estas linhas de identificação do que é bom e do que é mau são forçosamente pessoais e por isso mesmo, difíceis de discutir; valem por ser mais uma opinião lançada ao Mundo. A minha ação limita-se a construir um enquadramento para uma avaliação, a qual designei como racionalizada da experiência de leitura, ou AREL.

Pré-Requisitos para a AREL

  1. Quem lê retira prazer da leitura e não se sente forçado a levá-la a termo, como referem os Direitos Inalienáveis do Leitor nº1 e nº3 (Pennac, 1993);
  2. O leitor compreede que o sistema AREL é um trabalho em progresso e sempre em constante alteração;
  3. Sendo um sistema essencialmente númerico, beneficia do afinamento que o leitor vá dando à atribuição das suas pontuações. Recomenda-se a manutenção de um registo das impressões da leitura e das suas avaliações AREL.

Critérios AREL

C Nº1 – A natureza cristalina da escrita que é quase musical
C Nº2 – A profundidade das personagens que atravessam camadas da casca da cebola
C Nº3 – A envolvência e pertinência do tema para o leitor que lê o certo à hora certa
C Nº4 – A construção de uma teia emocional que enreda o leitor
C Nº5 – A sensação de uma mudança interior ou catarse depois da leitura

Procedimentos AREL

O leitor decide o fator a aplicar aos critérios: equitativo ou desigual. O primeiro, prevé que cada critério AREL tem a mesma importância para o leitor, o segundo, atribuí mais peso a um ou dois critérios. Recomenda-se a adoção de um procedimento para que a eperiência de leitura possa ser avaliada transversalmente pelo leitor.

Procedimento AREL Equitativo

Todos os critérios de 1 a 5 são pontuados de 1 a 10 valores. Os pontos são somados para obter a pontuação total. O livro da vida de um leitor tem 50 pontos, no máximo. O livro de ódio de estimação tem 5 pontos, no mínimo.

Exemplo: Os Despojos do Dia, Kazuo Ishiguro

C1 – 6
C2 – 6
C3 – 8
C4 – 6
C5 – 7
Total = 32 em 50 valores = 0,64 x 100 = 64%

Conclusão: Os Despojos do Dia responderam a 64% dos meus critérios no procedimento AREL equitativo.

Procedimento AREL Desigual

Designa-se 1 ou 2 critérios que o leitor considere mais relevante para a sua experiência de leitura. Estes critérios essenciais são avaliados de 1 a 20 valores, enquanto que a escala dos básicos se mantém de 1 a 10 valores. Os pontos são somados para obter a pontuação total e a escala total é a soma dos valores máximos em cada critério. Note-se que o procedimento AREL desigual não é comparável com o procedimento equitativo, apenas permite comparação com outras avaliações desiguais cujos critérios essenciais sejam iguais. Assim, é possível na mesma AREL desigual, para o mesmo livro, haver pontuações diferentes, bastando para isso definir critérios essenciais distintos.

Exemplo: Um Homem e o seu Cão, Thomas Mann
Critério Essencial: C5

C1 – 8
C2 – 5
C3 – 6
C4 – 5
C5 – 14
Total = 38 em 60 valores = 0,63 x 100 = 63%

Conclusão: Um Homem e o seu Cão responderam a 63% dos meus critérios no procedimento AREL desigual, considerando o C5 como critério essencial.

Conclusão

Apenas votos de boas avaliações, com o sistema AREL ou outro, e de ainda melhores leituras.

Sobre a leitura de “Um Gentleman em Moscovo”, por Amor Towles

Um tribunal bolchevique condena o conde Alexandr Ilitch Rostov a cumprir pena em prisão domiciliária, por ter escrito um poema. A suite que ocupa no hotel Metropol deixa de ser espaçosa e luxuosa, com vista privilegiada, para ser um espaço de nove metros quadrados.

Vyshinski: Qual é a sua profissão?
Rostov: Um cavalheiro não tem profissão.
Vyshinski: Muito bem. Então, como é que ocupa o seu tempo?
Rostov: Com jantares, conversas, leituras, reflexão. O habitual.
Vyshinski: E escreve poesia?
Rostov: Já me aconteceu esgrimir a pena, sim.

O romance expande-se desde 1922 a 1954 e desenvolve-se em plena União Soviética de Estaline, servindo como Secretário Geral do Partido Comunista de 1922 a 1952, e como primeiro-ministro do seu país de 1941 a 1953.

Ao condenado conde Rostov reservam-se 32 anos de vida no hotel, serão anos de transformação de circunstâncias mas a essência do homem permanece. Alexandr não sofreu nenhuma alteração no seu código moral; foi de forma constante um homem educado, leal, optimista e espirituoso.

Ao contrário do que se poderia esperar, o romance não se baseia na luta de classes. É sim sobre outros temas, com o pano de fundo da escuridão daquela União Soviética, em especial a amizade, a integridade e a bondade.

Quando tirei este livro da estante da Bertand para o comprar, pensei que me pudesse vir a arrepender, por estar a comprar compulsivamente um livro com tão poucas referências do seu autor. Esta decisão revelou-se muito positiva – “Um Gentleman em Moscovo” é uma boa recomendação de leitura, nestes tempos em que vivemos, e foi uma excelente adição à biblioteca das histórias na Rússia!