As notícias em Portugal

A história passa-se em Portugal no ano de 2016 e continua francamente aplicável. Segue-se um texto de um cronista do Público.

“Nos vinte dias anteriores era futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol. Num dia, no meio do futebol, alguma coisa sobre os atentados na Turquia. Antes dos dias do futebol havia os dias do meio-futebol, ou dos preliminares do futebol, preliminares do futebol, preliminares do futebol, preliminares do futebol, preliminares do futebol, preliminares do futebol, preliminares do futebol, preliminares do futebol, preliminares do futebol, preliminares do futebol, preliminares do futebol, preliminares do futebol. Havia um Deus revelado nestes dias e chamava-se Ronaldo. Acabaram os canais noticiosos, todo o cabo é desporto, todos unidos, todos iguais. Acabaram as notícias, e os locutores que agora se chamam pivot pedem desculpa por ainda terem que falar de coisas menores, o Daesh, Trump, Clinton, o Deutsche Bank, os curdos, a Síria. Já não me lembro. Como é que me posso lembrar se foi tudo há tanto tempo e durou tão pouco tempo?

Antes? Também já não me lembro. A Caixa Geral de Depósitos associada às peripécias da Comissão de Inquérito? Talvez. Talvez os colégios de amarelo. Onde estão? Lá muito atrás um sussurro sobre os refugiados, ou melhor sobre os cadáveres dos refugiados. E estamos a chegar a uma outro campeonato, o de cá. E outra vez futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol. Futebol sob a forma de intrigas, declarações tonitruantes, vinganças, relvado e o seu estado, pernas, joelhos e outras partes da anatomia inferior dos jogadores, treinos, treinos, chegada de autocarros, partida de hotéis, chegada dos exércitos das claques, declarações dos responsáveis da PSP, horas e horas e horas e horas e horas e horas de programas desportivos. Emissões especiais, conferências de imprensa dos treinadores, dos jogadores, dos dirigentes desportivos… Já não me lembro. Mas havia uma voz. Uma voz acompanha tudo, 200 dias, 500 Declarações do Presidente da República, à média de mais de duas por dia. Dessas lembramo-nos de dez. As mais importantes? Quando se fazem 500 declarações nenhuma é importante. Talvez nos lembremos das mais engraçadas. Ou, melhor ainda, das imagens, que são sempre mais fortes do que as palavras. Agarro-me ao segundo critério para haver memória: há imagens, há notícia, seja uma coisa séria ou irrelevante. Não há imagens, não há notícia. Por isso toda a gente se mostra diante das câmaras. Mas o que fazem, o que dizem? Marcelo a dançar em Moçambique, talvez a mais relevante, mas também já não me lembro bem…” 

(José Pacheco Pereira para o Público, 2016)

“Mistérios” de Knut Hamsun

Nagel é das personagens mais perturbadas da literatura mundial; nada do que diz aos outros é confiável e mesmo o que pensa para si próprio deixa o leitor com a sensação de estar a ser enganado. Afinal, existe alguma verdade? Existirá, na vida, alguma coisa que se possa tomar como moralmente nobre, justa, honesta? A honestidade e a generosidade serão apenas valores que são sempre mais abusados por quem é mais falso no seu íntimo? O mistério que os “Mistérios” querem desvendar é, muito provavelmente, o absurdo de existir. E, esse mistério é insondável e mesmo insolúvel.


A chegada de Nagel a uma pequena cidade da costa norueguesa no ano de 1891 não tem qualquer significado nem propósito. Não há razão aparente para a sua estadia ali nem nenhum motivo para visitar aquele sítio em particular. 


Nagel veste um fato amarelo, aloja-se num hotel, traz consigo uma maleta de violino, diz-se agrónomo de profissão e transporta no casaco uma ampola de veneno!


Mais tarde, o leitor dá-se conta de que: Nagel tem uma maleta de violino cheia de roupa suja e alega que não sabe tocar!

Mais tarde ainda, o leitor dá-se conta de que: Nagel toca num violino emprestado numa festa da aldeia!


Nagel envia cartas a si próprio!


Nagel é bondoso com alguns dos habitantes da cidade e não espera retribuição. A sua generosidade é real e nunca hipócrita. De uma forma caótica e destrutiva, vai semeando as forças do caos e vai conseguindo trazer ao de cima os segredos mais escuros de todos os habitantes.


Nagel não acredita em “grandes homens” e nunca foi agrónomo! É, quanto muito, “um filósofo que nunca aprendeu a pensar”.


Nagel apaixona-se (?) pela menina Kielland para ter o prazer de ser rejeitado. 


Nagel traz consigo uma medalha que ganhou por ter salvo um homem do suicídio!


Nagel tenta matar-se, depois de ter dito que nunca o faria!


A última notícia do Sr. Nagel é a de se ter atirado ao mar em busca do seu anel de ferro!

O Nagel dos Mistérios é afinal e depois de tudo insuportável! A vida e a humanidade, em geral, é-lhe insuportável e parece-me que ele é insuportável na vida.

As histórias do Sr. Nagel parecem querer reflectir a dificuldade e a fragilidade da humanidade, o seu absurdo contraditório e a inquietação de estar vivo – o existencialismo em pessoa! A Natureza, enquanto entidade superior, tem um papel curioso – os passeios em modo livre do Nagel ou mesmo as suas fases febris alucinadas acabam por tomar lugar na floresta. Da ciência desconfia-se … dos curandeiros supersticiosos miraculosos tem-se mais respeito, é este o Sr. Nagel.


“A leste e a oeste, em casa e no estrangeiro, achava que as pessoas eram sempre as mesmas; a mesma vulgaridade, a mesma hipocrisia, desde o pedinte que colocava ligaduras numa mão perfeita sob o céu azul e cheio de ozono. E ele, Nagel, era melhor do que os ouros? Não era melhor, mas aquele era o fim.” 

Knut Hamsun (1859-1952) em “Mistérios” (1892)

Sobre o norueguês Knut Hamsun deixo a nota que foi considerado traidor da sua pátria e morreu num asilo. Isto, depois de ter entregue a sua medalha de Prémio Nobel ao Goebbels.

De Clarice Lispector para Fernando

A carta da Clarice a este Fernando, escrita em 1956, quando ela morava com a família nos Estados Unidos, tem de ser partilhada. Fala do “Grande Sertão: Veredas”.

Fernando,

Estou lendo o livro de Guimarães Rosa, e não posso deixar de escrever a você. Nunca vi coisa assim! É a coisa mais linda dos últimos tempos. Não sei até onde vai o poder inventivo dele, ultrapassa o limite imaginável. Estou até tola. A linguagem dele, tão perfeita também de entonação, é diretamente entendida pela linguagem íntima da gente – e nesse sentido ele mais que inventou, ele descobriu, ou melhor, inventou a verdade. Que mais se pode querer? Fico até aflita de tanto gostar. Agora entendo o seu entusiasmo, Fernando. Já entendia por causa de Sagarana, mas este agora vai tão além que explica ainda mais o que ele queria com Sagarana. O livro está me dando uma reconciliação com tudo, me explicando coisas adivinhadas, enriquecendo tudo. Como tudo vale a pena! A menor tentativa vale a pena. Sei que estou meio confusa, mas vai assim mesmo, misturado. Acho a mesma coisa que você: genial. Que outro nome dar? Esse mesmo.

Me escreva, diga coisas que você acha dele. Assim eu ainda leio melhor.

Um abraço da amiga,

Clarice

Carta publicada no Correio IMS, do site do Instituto Moreira Salles.  

“Sobre a importância do vazio” ou “Haja espaço para esticar as pernas e tempo para fazer nada”

As boas ideias nascem todas da mesma forma. Descendem todas do haver espaço e do tempo para se olhar à volta – a contemplação. Li algures que estando no inferno, há dois caminhos: tornar-se infernal ou abrir espaço para o que pode ser melhor conseguir crescer.

Quando certa vez é entrevistado por Robert Ebert, pergunta-se a Hayao Miyazaki – o génio de “O meu vizinho Totoro”, “A viagem de Chihiro” e “O Castelo Andante” – qual é a ideia por detrás de tantas cenas que não acrescem à narrativa, que não pretendem desenvolver nem as personagens nem a história?

A pergunta remete para, por exemplo, a cena em que Sasuke e Totoro aguardam à chuva. Porquê tantos silêncios e tantas cenas em que se assiste ao passar do tempo. Miyazaki responde que o silêncio presente nesses momentos é totalmente intencional e cumpre um papel essencial na narrativa.

Os japoneses até têm uma palavra para isso (“ma”), que vem da junção dos caracteres “porta” e “sol”. Significam a ausência de qualquer coisa e espaço para que possa entrar o Sol, a porta…


“Eles preocupam-se muito que a audiência se aborreça. Mas não é por um filme estar 80% do tempo preenchido com momentos intensos, que as crianças te vão abençoar com a sua concentração.”

Hayao Miyazaki