Ouvi dizer que o perigo estava aqui. Já chegámos?

Como sempre ouvira dizer que os arbustos de framboesas eram o paraíso das víboras, deixei Lince em casa. Foi com bastante relutância que ele se conformou com a ideia e se arrastou, desolado, para o seu buraco no fogão. Calcei por cima dos sapatos umas velhas polainas de cabedal que haviam pertencido ao guarda e que me dificultavam muito o andar, pois davam-me por cima do joelho. Claro que não vi uma única víbora junto às framboesas. Hoje já não quero saber delas. É possível que esta zona não seja de cobras, ou tão-só que elas fujam de mim. Talvez me considerem tão perigosa como eu a elas. 

A Parede, por Marlen Haushofer

Como perder: um guia em 10 passos fáceis de seguir!

Se a perda era anunciada deve iniciar no passo 7. Se a perda era imprevista deve iniciar no 1.

  1. Concluir que se ganhou! Quanto mais forte e duradoura esta etapa ilusória tanto melhor.
  2. Assumir a derrota.
  3. Rever e analisar os motivos, meios e oportunidades: Perguntar o porquê de tudo. Fazer um cronograma ou um diagrama de decisões chave para ver o grande esquema das coisas, uma análise SWOT e uma memória descritiva para pontos extra.
  4. Concluir que se ganhou!
  5. Concluir que se perdeu. 
  6. Repetir 9 vezes, os passos anteriores. Porque a clareza pode vir com a repetição ou com o cansaço ou com gelado de chocolate.
  7. Assumir a derrota (definitivamente).
  8. Fugir.
  9. Voltar.
  10. Esquecer o que se perdeu, porque se perdeu e como se perdeu!

Se o último passo não funcionou é porque os anteriores não foram seguidos corretamente, deve reiniciar o guia. 

Boa sorte, para todos os perdedores!

Orwell, na Mó de Baixo

Ah, mais, mon ami, os altos e baixos da vida! Capitão do exército russo, e depois, pimba, a Revolução — e perdi tudo. Em 1916 passei uma semana no Hotel Édouard Sept, e em 1920 estava a concorrer a um emprego de guarda-nocturno nesse hotel. Já fui guarda-nocturno, copeiro, empregado de limpeza, lavador de pratos, carregador, encarregado de casas de banho. Dei gorjetas a empregados de mesa e recebi gorjetas de empregados de mesa.”

Na Mó de Baixo em Paris e em Londres, George Orwell

A soma de todas as maravilhas

The oasis in the Gobi Desert

“Na vida dos imperadores há um momento, que se segue ao orgulho pela vastidão ilimitada dos territórios que conquistámos, à melancolia e ao alívio de sabermos que em breve renunciaremos a conhecê-los e a compreendê-los; um sentimento como que de vazio que nos assalta uma noite com o cheiro dos elefantes depois de chover e da cinza de sândalo que arrefece nas braseiras; uma vertigem que faz tremer os rios e as montanhas historiados na exuberante garupa dos planisférios, que enrola uns nos outros os despachos que nos anunciam a derrocada dos últimos exércitos inimigos de derrota em derrota, e tira o lacre dos selos de reis de que nunca se ouviu falar e que imploram a proteção dos nossos exércitos que avançam em troca de tributos anuais em metais preciosos, peles curtidas e cascas de tartaruga: é o momento desesperado em que se descobre que este império que nos parecera a soma de todas as maravilhas é uma ruína sem pés nem cabeça, que a sua corrupção está demasiado gangrenada para que baste o nosso cetro para a remediar, que o triunfo sobre os soberanos adversários nos fez herdeiros da sua longa ruína.”

Italo Calvino, As Cidades Invisíveis

Na dúvida, é preciso menos.

– Muito bem. E o que tens tu para dar? O que aprendeste, o que sabes fazer?

– Sei pensar. Sei esperar. Sei jejuar.

– Isso é tudo?

– Penso que é tudo!

– E para que serve isso? O jejuar, por exemplo, para que serve?

– É muito útil, senhor. Quando um homem nada tem para comer, jejuar é a coisa mais inteligente a fazer. Se, por exemplo, Siddhartha não tivesse aprendido a jejuar, teria hoje de aceitar qualquer serviço, em tua casa ou noutro lugar, porque a fome a isso o obrigaria. Mas assim, Siddhartha pode esperar, não conhece a impaciência, não passa dificuldades, pode enfrentar a fome durante muito tempo e rir-se dela. Por isso, senhor, o jejuar é útil.

Siddhartha, por Herman Hesse

O Lamento de Chilon em “Quo Vadis?”

– Aí temos agora o fogo atrás de nós, abrasando-nos os rins. Nunca nesta estrada se viu tão claro de noite. Oh! Zeus! Se não mandas um dilúvio que apague este fogo, é porque seguramente já não te interessas pela tua Roma! Uma cidade diante da qual se inclinavam a Grécia e o mundo inteiro! E agora, um grupo qualquer, o primeiro que apareça, poderá torrar as suas favas nas cinzas de Roma! Quem se atreveria a prevê-lo! E não haverá nunca mais cidade romana, nem senhores romanos… E aqueles que tiverem a fantasia de passear entre os escombros já frios e assobiar entre as ruínas poderão assobiar sem receio! Deuses imortais! Assobiar sobre uma cidade que dominava o universo! Que grego ou que bárbaro o teria jamais podido imaginar? E realmente poder-se-á assobiar à vontade. Porque um montão de cinzas, quer provenham duma fogueira de pastores ou do braseiro duma cidade ilustre, não passa de ser um montão de cinzas. E cedo ou tarde o vento acabará por espalhá-lo.

“Quo Vadis?”, por Henryk Sienkiewic 

Trascender a vida através da literatura

Foi pois assim que aconteceu, trata-se pois deste povo assim, é deste ponto de vista que é preciso encarar o assunto.

Almas Mortas, por Nikolai Gógol

Todas as realidades que hoje atravessamos já foram experimentadas por alguém, algures na linha do tempo da humanidade. Houve quem deixasse o seu testemunho por escrito, no infinito dos juncos, e hoje podemos ver reflectida a nossa mesma dificuldade. 

Como pode saber o primeiro escritor de todos sobre a vida do último leitor? Somos macacos a flutuar numa rocha no espaço sideral, aprendemos a sobreviver por observação dos mais aptos, para usar a linguagem de Darwin. 

Almas Mortas e os lumezinhos dos pântanos

Que caminhos tortos, selvagens, estreitos, intransitáveis, que desvios terríveis a humanidade tem escolhido na sua aspiração de alcançar a verdade eterna, quando perante ela se abria todo um caminho recto, como a rota que leva ao magnífico palácio destinado ao czar! Era mais largo e luxuoso, este caminho, do que todos os outros, alumiado de dia pelo sol e de noite pelas luzes, mas os homens foram pela escuridão, não tomaram por ele. Tantas vezes a razão lhes foi enviada dos céus e, mesmo assim, conseguiram afastar-se e desviar-se do rumo certo, souberam, à própria luz do dia, perder-se nos desertos intransitáveis, souberam tapar os olhos uns aos outros com a cega neblina e, arrastando-se atrás dos lumezinhos dos pântanos, atingir a beira do abismo para depois, aterrorizados, perguntarem uns aos outros: onde está a saída, qual é o caminho?

Aventuras de Tchítchikov Almas Mortas – Poema, de Nikolai Gógol
Tradução do russo: Nina Guerra e Filipe Guerra

Na paz das coisas selvagens

Quando o desespero do mundo cresce em mim
e acordo à noite ao mínimo ruído
com medo do que a vida possa ser para mim e para os meus filhos,
vou estender-me onde o pato-carolino
repousa a sua beleza na água, e a garça real se alimenta.

Expondo-me à paz das coisas selvagens
que não empenham a vida premeditando
a tristeza. Apresento-me à placidez das águas.
E pressinto, sobre mim, as estrelas
aguardando com a sua luz. Por momentos,
descanso na graça do mundo, e sou livre.

Wendell Berry, “The Peace of Wild things”, The Selected Poems of Wendell Berry. Berkeley: Counterpoint, 1999. Tradução de Patrícia C. A.

É como caminhar através de um milénio anterior aos seres humanos

“Se for nesta direção para onde estou a apontar com o meu bastão, vai dar a um vale onde pode andar de um lado para o outro durante horas sem medo nenhum”, disse ele. “Não tenha medo de ser descoberto”. Não lhe vai acontecer nada: está tudo morto e bem morto. Nem tesouros enterrados, nem colheitas, nada. Vai encontrar uns quantos vestígios desta ou daquela época, pedras, restos de muros, sinais, mas de quê, isso ninguém sabe. Uma certa relação misteriosa com o sol. Troncos de bétulas. Uma igreja em ruínas. Esqueletos. Vestígios de animais selvagens que andaram por ali. Quatro, cinco dias de solidão, de silêncio”, disse ele. “A natureza completamente intocada pelo homem. Cascatas isoladas. É como caminhar através de um milénio anterior aos seres humanos”.

Geada, por Thomas Bernhard