Vergonha alheia e as trevas

Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo –  Luís Fernando Veríssimo


A chefe, que está em posição de saber tudo assumindo que sabe pouco, tem uma apresentação em inglês para fazer. Tem uma folhinha com o texto que precisa de dizer, em inglês duvidoso. Muito duvidoso. O google tradutor não fez um bom trabalho nesse dia. Precisa de saber dizer gineceu em inglês. Precisa de saber dizer maintenance com a pronúncia mais correcta. Precisa de saber várias coisas. 


Testou-me por várias vezes: — Vamos lá ver… lê lá isto. A ver como é que é o teu inglês.
Safei-me (muito bem) em tudo o que me foi perguntado. A vergonha alheia começou a crescer em mim e a má sensação evoluiu ao ponto de destruir o meu respeito por ela. Sinto-me mal em escrever isto. Mas não o suficiente para parar! Por isso continuo.
A cena culminou com o telemóvel da senhora a repetir “ginexiam” e a chefe a repetir “ginexiam” por doze vezes seguidas.

O horror! O horror! –  Kurtz  em O Coração das Trevas, Joseph Conrad

O horror da cena é ainda melhor quando se lê o documento, que é suposto acompanhá-la e servir de amparo e conforto em momentos de stress noutra língua. 

(Os fãs do Coração das Trevas vão compreender que utilizo a citação do Kurtz demasiado brandamente; há demasiado para dizer sobre o horror.)


2 ou 3 considerações sobre “The Wasteland” ou “A Terra Devastada”

Uma viagem até ao centro mais profundo de todas as preocupações da humanidade. 
Marchamos, pela London Bridge, em colectivo como mortos em vida, de casa até ao trabalho, não vemos nada a não ser os nossos pés.

A desesperança na ressurreição, numa saída desta paisagem sem água, conforma-se com a inevitável roda que é o destino. Vários avisos e alertas se retiram da análise de todas as referências classicistas que Elliot acomodou nas 5 partes do poema. A quantidade e a importância destas, e de outras mais religiosas, é determinante para compreender o enquadramento da mensagem veiculada. Todo o sentido do poema está embebido de referências ao Cristianismo, ao Budismo e, no fim, ao Hinduísmo. Não se trata de um foco na religião por si, mas na espiritualidade, ou a falta dela num mundo tão desolado e vazio de sentido e propósito. Quem guarda a chave das nossas prisões individuais? Pergunta-se a humanidade em resposta ao segundo comando imperativo do Trovão –  Dayadhvam.

A sobreposição de vozes, a projecção constante de imagens quebradas, vindas da mitologia greco-romana, do universo de Shakespeare, de Dante, da obra de autores ingleses como Canterbury Tales, de lendas arturianas (O Rei Pescador) do próprio Elliot, das classes sociais mais altas e das mais baixas, cria um efeito sinistro de caos e de súplica para que sejam ouvidas. A voz da Sibila de Cumas, que tão nefasto negócio fez para si, introduz-nos na terra desolada. Abre-nos a porta para a aridez, onde não há sombra que nos proteja nem sequer o som da água a correr. O Tamisa poluído com todos os vestígios de quem se encontra só uma vez; afinal é para isso que existimos – para nos deixar-mos perder por momentos sem significado, sem uma perspectiva de continuidade, sem intimidade e comunhão reais entre nós: “O que demos nós?”. A tipógrafa que poderia esperar um reencontro de amantes, mesmo ao estilo romântico medieval, tem no lugar disso uma saída furtiva a meio da noite, depois de toda a violência e crueza impostas. Não é por acaso que a personagem escolhida como o perfeito narrador desta história tem uma dualidade de género, na verdade, conhece o lado feminino e o masculino. 

Lembrar de um tempo anterior é doloroso. Marie, logo no “Enterro dos Mortos”, lembra-se de um tempo em que descia a colina, sentindo-se segura e confiante. O mês de Abril é por isso o mais cruel, vem mexer no que estava adormecido e torpe depois do frio do Inverno. Nem as chuvas repentinas da Primavera conseguem fazer rebentar nada de bom, as sementes estão mortas e não têm capacidade de renovação. 
As camadas da interpretação são infinitas, seja um texto de pós-guerra, um desabafo de um homem traído ou um reflexo da indefinição de identidade das gerações de 1922 – a era do Jazz (também referenciada).

Para quem quiser percorrer uma interminável espiral descendente e sombria, para encontrar uma capela vazia onde mora só o vento e onde canta o galo, que tanto anuncia a traição de Pedro como a possibilidade de um novo dia.

Um começo

Poucas coisas podem ser tão intimidantes como uma folha em branco. Dizem alguns, que é uma liberdade ver todas as possibilidades imaginadas e sonhadas por completar -o sonho por cumprir. E, depois, o difícil é começar – Não! Mentira! Como disse a Pilar del Rio, numa entrevista a um jornalista meio tonto: difícil é ser mineiro.

Começa pelo início, disse o rei gravemente, e continua até chegares ao fim: então aí pára.  — Lewis Carroll, Alice in Wonderland

Há uma ideia a circular pelo mundo que nos sugere que é um erro mostrar-mos que somos felizes. A ideia pertence a Albert Camus (1959). Traduzindo bruscamente:

Hoje a felicidade é como um crime – nunca a admitas. Não digas ‘Estou feliz’ ou só verás condenação à tua volta. – A. Camus

Arrisco a desafiar o autor de “A Peste” e  de “O Estrangeiro e declarar, sem cerimónias, que começo o “de Palavras” em dias felizes.

Neste espaço, proponho-me a escrever sobre o que vou lendo e o que já li. Não ignoro, no entanto, os perigos do compromisso. Com isto assente, melhor será deixar escrito neste começo, que é provável encaixar neste espaço, outros temas que me falam.