Uma viagem até ao centro mais profundo de todas as preocupações da humanidade.
Marchamos, pela London Bridge, em colectivo como mortos em vida, de casa até ao trabalho, não vemos nada a não ser os nossos pés.
A desesperança na ressurreição, numa saída desta paisagem sem água, conforma-se com a inevitável roda que é o destino. Vários avisos e alertas se retiram da análise de todas as referências classicistas que Elliot acomodou nas 5 partes do poema. A quantidade e a importância destas, e de outras mais religiosas, é determinante para compreender o enquadramento da mensagem veiculada. Todo o sentido do poema está embebido de referências ao Cristianismo, ao Budismo e, no fim, ao Hinduísmo. Não se trata de um foco na religião por si, mas na espiritualidade, ou a falta dela num mundo tão desolado e vazio de sentido e propósito. Quem guarda a chave das nossas prisões individuais? Pergunta-se a humanidade em resposta ao segundo comando imperativo do Trovão – Dayadhvam.
A sobreposição de vozes, a projecção constante de imagens quebradas, vindas da mitologia greco-romana, do universo de Shakespeare, de Dante, da obra de autores ingleses como Canterbury Tales, de lendas arturianas (O Rei Pescador) do próprio Elliot, das classes sociais mais altas e das mais baixas, cria um efeito sinistro de caos e de súplica para que sejam ouvidas. A voz da Sibila de Cumas, que tão nefasto negócio fez para si, introduz-nos na terra desolada. Abre-nos a porta para a aridez, onde não há sombra que nos proteja nem sequer o som da água a correr. O Tamisa poluído com todos os vestígios de quem se encontra só uma vez; afinal é para isso que existimos – para nos deixar-mos perder por momentos sem significado, sem uma perspectiva de continuidade, sem intimidade e comunhão reais entre nós: “O que demos nós?”. A tipógrafa que poderia esperar um reencontro de amantes, mesmo ao estilo romântico medieval, tem no lugar disso uma saída furtiva a meio da noite, depois de toda a violência e crueza impostas. Não é por acaso que a personagem escolhida como o perfeito narrador desta história tem uma dualidade de género, na verdade, conhece o lado feminino e o masculino.
Lembrar de um tempo anterior é doloroso. Marie, logo no “Enterro dos Mortos”, lembra-se de um tempo em que descia a colina, sentindo-se segura e confiante. O mês de Abril é por isso o mais cruel, vem mexer no que estava adormecido e torpe depois do frio do Inverno. Nem as chuvas repentinas da Primavera conseguem fazer rebentar nada de bom, as sementes estão mortas e não têm capacidade de renovação.
As camadas da interpretação são infinitas, seja um texto de pós-guerra, um desabafo de um homem traído ou um reflexo da indefinição de identidade das gerações de 1922 – a era do Jazz (também referenciada).
Para quem quiser percorrer uma interminável espiral descendente e sombria, para encontrar uma capela vazia onde mora só o vento e onde canta o galo, que tanto anuncia a traição de Pedro como a possibilidade de um novo dia.